Bairro da Gente ou como criar cidades para pessoas

Cidades são lugares caóticos e frenéticos. Comumente, seu desenvolvimento não é planejado, fator que por si só acaba gerando enormes problemas urbanísticos a longo prazo, como um déficit de espaços de convivência humana, verticalização desenfreada das habitações, vias desapropriadas para pedestres, transporte público ineficiente, entre outros. Sem falar das sérias consequências sociais relacionadas a hierarquização vertical de classes através da inevitável criação de “bolsões de pobreza” e da especulação imobiliária.

Tudo isso – e muito mais coisas, pode acreditar – unido a projetos privados e governamentais de arquitetura megalomaníaca e desproporcional às medidas humanas, é responsável pelo desenvolvimento de ambientes estéreis, claustrofóbicos, não propícios ao relacionamento interpessoal e que, muitas vezes, tornam as pessoas infelizes.

Legal. Daí você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com um blog sobre branding, marketing e comunicação, certo?

Certo. A questão é justamente o título e propósito deste artigo, um projeto inovador que encontrei navegando por essa Internet véia-e-sem-porteira chamado Bairro da Gente, cuja a descrição na página deles do Facebook é inspiradora: “Somos fazedores de lugares para se viver feliz!”.

Meses atrás, me indicaram um livro chamado “Cidade para Pessoas“, do arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, que acabou virando um livro de cabeceira, já que apesar de não ser nem arquiteto e tão pouco urbanista, sou apaixonado por ambos os temas.

O autor, entre outras obras, é o grande responsável pela urbanização da Copenhague que conhecemos hoje, com seus amplos passeios, ciclovias e espaços destinados às pessoas. E, entre os muitos assuntos que Gehl trata em seu livro, estão temas como a importância da arquitetura na escala humana, o desenvolvimento de zonas mistas residenciais e comerciais, o favorecimento da criação de “uma cidade melhor para as pessoas viverem”, além de uma crítica voraz à arquitetura modernista e ao que ele nomeou de “Síndrome de Brasília”.

O grande lance é que a marca Bairro da Gente possui muito dos princípios de Gehl associados em seu DNA, que são também compartilhados com o movimento de placemaking: co-criação com a comunidade (que é a verdadeira conhecedora do local), espaços públicos de uso misto e com mobilidade prioritária ao pedestre e ao ciclista, edifícios na escala humana, ocupação social de renda mista, parceria público-privada, desenvolvimento planejado, entre outros. Ou seja, a criação de lugares voltados para as pessoas e não para carros, prédios e empresas.

O primeiro projeto já está em estudo no antigo Aeroclube da cidade de Limeira, sendo liderado pela agência CEB+D, responsável pela coordenação do  processo colaborativo de placemaking e place branding do empreendimento, além de ser também a desenvolvedora do branding, naming, identidade visual e de toda a gestão estratégica da marca Bairro da Gente.

Bairro da Gente
Primeira dinâmica da equipe do Bairro da Gente e da CEB+D com moradores e lideranças da cidade de Limeira. Foto: Divulgação.

Obviamente, o processo de criação de um bairro planejado e focado nas pessoas é muito mais complexo do que eu poderia descrever em algumas sentenças, e envolve fatores que abrangem a participação de três pilares básicos da sociedade: o privado, o público e a comunidade. Se um desses pilares falhar, os demais desmoronarão com ele.

O mais importante no caso da iniciativa do Bairro da gente, é a percepção de que a ideia não é conceber um “bairro popular”, como a iniciativa do Minha Casa Minha Vida, por exemplo, que funciona como um “tapa buraco” para o déficit residencial e acaba tendo grande participação na criação da hierarquização social, alocando pessoas de baixa renda em zonas distantes e com infraestrutura precária. A ideia do BDG é o desenvolvimento de algo totalmente novo no país, que propõe urbanização que permita a integração entre as diversas faixas de renda de maneira igualitária e participativa, diminuindo os contrastes sociais e, assim, favorecendo o desenvolvimento humano.

Em suma, a marca Bairro da Gente é uma ideia inovadora e empreendedora que segue premissas nunca testadas antes em território nacional. É uma proposta de sustentabilidade social e urbana que propõe uma ruptura nos paradigmas de como enxergamos as cidades. Mas, se der certo, esse desafio tornará mais feliz não apenas para os empresários por trás do projeto.

O assunto interessou? Para saber mais sobre placemaking, você pode acessar esse link aqui e este aqui.

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